Hoje — Audiência ao encontro sobre IA da Pontifícia Academia para a Vida · O Papa votou pelo correio nas eleições de meio de mandato dos EUA
🤝 Audiência
Audiência aos participantes no encontro «O futuro da IA» promovido pela Pontifícia Academia para a Vida
📍 Palácio Apostólico Vaticano, Sala do Consistório
De manhã, Leão XIV recebeu na Sala do Consistório cerca de vinte participantes no encontro «O futuro da IA: um diálogo entre o Vaticano e o mundo científico sobre os desenvolvimentos e as aplicações das tecnologias inteligentes», promovido pela Pontifícia Academia para a Vida e pelo Future of Life Institute na Casina Pio IV. No discurso, pronunciado em inglês, o Papa recordou as palavras do Papa Francisco ao G7 de 2024 (nunca confiar a uma máquina a escolha de tirar uma vida humana) e a encíclica Magnifica humanitas, propondo cinco considerações: o futuro da IA não está predeterminado; as máquinas são instrumentos, não pessoas; certas decisões nunca devem ser delegadas (com um apelo aos Estados que se reunirão em Genebra em novembro para avançar rumo à proibição das armas letais autónomas); as tecnologias devem servir o bem comum; são necessárias instituições internacionais eficazes que ponham em prática os princípios éticos.
Discurso aos participantes no encontro promovido pela Pontifícia Academia para a Vida (traduzido)
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A paz esteja convosco.
Dou as boas-vindas a todos vós e agradeço-vos a vossa presença esta manhã. Vindes de muitos países, trazendo convosco uma grande variedade de perguntas e visões. Ao mesmo tempo, penso que partilhais um certo sentimento de desconforto em relação ao desenvolvimento da inteligência…
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A paz esteja convosco.
Dou as boas-vindas a todos vós e agradeço-vos a vossa presença esta manhã. Vindes de muitos países, trazendo convosco uma grande variedade de perguntas e visões. Ao mesmo tempo, penso que partilhais um certo sentimento de desconforto em relação ao desenvolvimento da inteligência artificial. Reconhecemos a direção que deveríamos tomar, mas não se está a fazer o suficiente para avançar. Estou-vos grato por terdes partilhado as vossas preocupações, bem como as vossas ideias e as vossas propostas para o futuro. Estes são os primeiros frutos de uma abordagem transdisciplinar, cada vez mais necessária se quisermos enfrentar a complexidade dos grandes desafios do nosso tempo.
A Pontifícia Academia para a Vida, que organizou este encontro, está bem consciente dos desafios que surgem onde quer que a dignidade humana seja ameaçada. A este respeito, falando aos líderes do G7, o Papa Francisco descreveu a inteligência artificial como «um instrumento fascinante e tremendo ao mesmo tempo» e afirmou que nunca se deveria confiar a uma máquina a escolha de tirar uma vida humana (cf. Discurso na Sessão do G7 sobre a inteligência artificial, 14 de junho de 2024). Essas palavras permanecem mais atuais do que nunca. Na Encíclica Magnifica humanitas procurei abordar estas questões de modo mais aprofundado. Hoje gostaria de vos propor cinco considerações em particular.
Primeiro, o futuro da inteligência artificial não está predeterminado. Como tecnologia desenvolvida por seres humanos, o seu futuro depende das escolhas que fazemos. Por isso, temos a responsabilidade de orientar, mudar e, quando necessário, rejeitar as suas aplicações (cf. nn. 97, 104). A pergunta decisiva, portanto, não é simplesmente: «o que consegue fazer a inteligência artificial?», mas sim: «para que deveria servir?». Aqueles que consideram o seu desenvolvimento meramente uma corrida a vencer correm o risco de se concentrar apenas na linha de chegada, esquecendo quantos são deixados para trás. Um sistema fiável que sirva a pessoa humana é mais precioso do que um sistema extraordinariamente poderoso, mas cujas consequências não podem ser adequadamente previstas ou controladas.
Segundo, as máquinas são instrumentos, não pessoas. «As chamadas inteligências artificiais não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não atravessam a alegria e a dor, não amadurecem na relação, não conhecem a partir de dentro o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade» (n. 99). Hoje há quem proponha conceder a estes sistemas direitos, ou até mesmo personalidade jurídica. Tal abordagem corre o risco de obscurecer a responsabilidade humana e de deixar que aqueles que sofrem um dano se confrontem com uma entidade sem rosto.
Terceiro, certas decisões nunca devem ser delegadas. Quando uma pessoa é inserida numa lista de suspeitos ou registada numa base de dados de controlo de fronteiras, existe o risco de que seja reduzida a um simples dado. As decisões que dizem respeito à vida humana, à liberdade e ao uso da força devem permanecer sempre sujeitas a um controlo humano eficaz, informado e responsável (cf. nn. 198-200). Por esta razão, a inteligência artificial deve ser «desarmada» (n. 110), e encorajo os Estados que em novembro se reunirão em Genebra a dar passos concretos rumo à proibição das armas letais autónomas.
Quarto, as tecnologias inteligentes devem ser orientadas para o bem comum. «A justiça hoje passa também pelo acesso aos benefícios da inovação: cuidados, conhecimento, instrumentos, oportunidades» (n. 161). De facto, nunca devem tornar-se fins em si mesmas e servir meramente os interesses de poucos privilegiados. Pelo contrário, o seu desenvolvimento deve promover a solidariedade e a participação nos diversos níveis da comunidade global, assegurando que os benefícios do progresso sejam partilhados equitativamente, especialmente com quem mais precisa (cf. nn. 71-72).
Por fim, gostaria de evidenciar um desafio, que é talvez o mais urgente. Já conhecemos muitos dos princípios éticos que deveriam guiar o desenvolvimento da inteligência artificial. Aquilo de que atualmente precisamos são instituições capazes de pôr em prática esses princípios, especialmente instituições internacionais eficazes que possam salvaguardar o bem comum global (cf. n. 64). Isto exige padrões partilhados, supervisão independente e mecanismos de responsabilidade claros, de modo que as decisões relativas ao desenvolvimento e à utilização da inteligência artificial possam ser examinadas, contestadas se necessário e acompanhadas de remédios apropriados para qualquer dano causado (cf. nn. 105, 107).
Queridos amigos, com estas reflexões agradeço-vos mais uma vez os vossos preciosos contributos neste campo e encorajo-vos a perseverar no vosso empenho, trabalhando juntos num espírito de diálogo e de responsabilidade partilhada pelo bem comum. Acompanho-vos com as minhas orações e a cada um de vós concedo de coração a minha bênção. Obrigado.
Segundo o Boletim, o Papa recebeu ainda: D. Fortunatus Nwachukwu, secretário do Dicastério para a Evangelização (Secção para a primeira evangelização e as novas Igrejas particulares); os bispos da Albânia em visita «ad limina Apostolorum»; D. Alejandro Arellano Cedillo, decano do Tribunal da Rota Romana; o cardeal Claudio Gugerotti, prefeito do Dicastério para as Igrejas Orientais.
Após notícias de meios de comunicação locais, a Sala de Imprensa da Santa Sé confirmou que Leão XIV «enviou o seu boletim de voto pelo correio para Chicago» para as eleições de meio de mandato de 3 de novembro nos Estados Unidos. O Pontífice, nascido em Chicago, sempre exerceu o direito de voto como cidadão norte-americano quando teve oportunidade, também durante os anos no Peru, e «exprime a sua convicção sobre o direito e o dever dos cidadãos de participar nos processos democráticos».